Aí vai um textinho meu...
A LAGARTIXA OU PARA AQUELES QUE MORAM SOZINHOS
Tudo começou quando meu namorado me deixou. Porém, logo a vida, ou o destino ou o acaso me mandaria uma nova companhia. Mal sabia eu que essa nova companhia seria uma lagartixa.
Aqueles que moram sozinhos têm algumas paranoias, há poucos meses venho tomando consciência disso. Nada que comprometa a saúde mental e física dos solitários. Pelo menos, não muito. Minha nova companhia e paranoia ocasionalmente me causa surtos de labirintite estomacal e perda de tempo. Mais adiante explicarei tais surtos, me deterei no momento a contar como essa coisinha não tão insignificante começou a fazer parte de minha vida.
A chamo de Sookie. Um desses nomes de personagens que vemos em seriados americanos. Justo, que ela concordou de muito bom grado com a escolha do nome. Sei disso por telepatia. É assim que nos comunicamos. Coincidentemente a personagem da série é uma telepata. Coincidentemente. Ouvir pensamentos de outras pessoas não é o mesmo tipo de telepatia para se comunicar com animais ou bichos, sabe-se lá a diferença semântica da coisa.
O fato é que, na pressa em sair de casa no horário, ao fechar ou tentar fechar a janela, a mesma estranhamente não se fechou. Sem paciência, tempo ou vontade para uma investigação mais minuciosa sobre o motivo da trava da janela, me limitei em supetão a empurrá-la com toda a força. Foi então que saiu a lagartixa da fresta da janela. quase certo que machucada pelo esmagamento e, para o meu desespero, sem o rabo. Este, ficou preso ao vidro, e por muitos minutos continuou chacoalhando para enganar o inimigo, ou seja, eu.
Tal qual foi meu desespero. A última coisa que eu precisava em um momento de tanta fragilidade sentimental devido ao fim de um relacionamento muito amoroso, era ser agente de um zoocídio tão violento. Pobrezinha da lagartixa. Confesso que chorei, não só por ela, mas por todas as minhas dores.
No dia seguinte, ao me aproximar da janela para realizar o sujo trabalho de desvincular o resto rabal de Sookie, foi um susto maior ao achá-la caída na fresta, seu corpinho já com uma cor absurdamente diferente jazia quieto e morto... Cabia a mim dar fim não só ao resto rabal da falecida, mas a todos os seus restos mortais. E não é que para complementar a sequência de surpresas, porém quebrando o ciclo de más surpresas sendo essa boa, ao tocar a lagartixa com a pá, ela abriu seus olhinhos e se mexeu. Acho que o acidente não foi tão mal assim, ela devia estar apenas recuperando-se da falta do rabo. Aquela cor diferente, creio que fosse uma camuflagem já que ela se misturava bem à cor ambiente. Considerei colocar algumas gotinhas de dipirona para que se sentisse melhor, entretanto não sabia a dosagem para o tamanho de seu corpinho, eu poderia matá-la de vez causando-lhe uma overdose. Nem preciso dizer tal qual foi minha felicidade quando, dois dias depois ela resolveu sair de seu esconderijo para tentar se alimentar do lado de fora. Desejei-lhe boa sorte e tirei o peso de um zoocídio de minha alma.
Mas há que entender que as coisas nunca são tão simples assim. No dia seguinte, ao procurar por algo em uma cesta na cozinha, levo um pequeno susto ao encontrar a pequenina descansando escondida dentro da cesta. Compreendi seus motivos, devia estar ainda bastante fraca e assustada e precisava se refugiar aqui por dentro. Mais à noite descansando na sala e assistindo algo na TV, vejo com o canto do olho ela passando na parede ao lado em direção à janela. Não me incomodei, lembrei-me de que ela morava mesmo por ali do lado de fora da mesma, até já cheguei a presenciar um momento seu de intimidade... não tanto de intimidade, já que se tratava de um menáge... a trois... pelo menos de início... já que o terceiro participante deve ter se sentido excluído da brincadeira pois saiu antes de terminar. Não foi algo muito agradável de se ver. Mas estavam em minha janela, não pude evitar. Parecia um daqueles documentários sobre o mundo animal, porém ao vivo. Bem, isso não vem ao caso, ocorreu antes dos acontecimentos de agora.
O que vem ao caso é que, não sei que espécie de elo espiritual essa lagartixa travou comigo, o fato é que então ela queria dormir na minha cama!!! Vejam bem, eu estava em meu quarto descansando após um dia cansativo de trabalho e escuto um "plaft" vindo do corredor. Fui correndo checar o que era, devemos estar atentos a qualquer barulho estranho, nunca se sabe quando as trombetas dos anjos irão tocar para que façamos uma fila para o julgamento final. No corredor encontro Sookie no meio do caminho, lugar não muito comum para esses bichos; me lembrei que uma vez uma lagartixa caiu em cima de minha mãe e me tremi toda ao pensar que Sookie poderia estar com algum problema de aderência devido ao acidente e cair sobre mim a qualquer momento. Fiquei cismada com o que poderia ocorrer entre nós e me detive a acompanhar seus movimentos. Quando ela entrou no quarto ao lado do meu e foi em direção à janela atrevi-me a relaxar e tentar esquecer o assunto. Naquela noite não dormi. Acordava o tempo todo preocupada com a lagartixa andando pelas paredes do meu quarto e caindo em cheio em minha cama.
Foi no dia seguinte que começaram os surtos de labirintite estomacal. Ao me lembrar do que poderia acontecer na madrugada, decidi fazer um vistoria em meu quarto para ver se a danada estava por lá. Puxo a cama para um lado, para o outro, levanto a cortina, arrasto o criado mudo, empurro a sapateira e nada de Sookie.(Quando mexo muito de um lado para o outro fico tonta, ataca a labirintite aguda e embrulha o estômago. Circular então? Um inferno astral.) E mais uma vez vejo com o canto do olho (maldita visão periférica da mulher que nada nos deixa ignorar) ela correndo pelo chão em direção ao banheiro do quarto. Não pude acreditar! Como iria tirá-la de lá? Tocar bicho nunca funciona, eles não vão para onde queremos. Dei uma olhadinha para ver o que ela fazia, estava parada enchendo meu saco atrás da porta. É claro que estava esperando a oportunidade para pular na minha cama. Também, tão quentinha e macia, até entendo seus motivos. Mas nessa cama não havia lugar para nós duas, a solidão deve ser plena. Ela que dormisse no quarto de hóspede se quisesse.
Resolvi esperar a boa vontade da lagartixa em sair para fora dali e ir para a janela caçar bichinhos. Peguei um bom livro e me deitei na cama com a linha de visão direto para a porta do banheiro. Quando estava viajando em meio aos meus pensamentos mais íntimos, dei uma olhadinha para a porta e não é que estava lá aquelazinha só com a cabecinha por debaixo da porta me encarando! Já não bastasse querer dormir comigo sem ser convidada, ainda me vigia nos meus momentos mais profundos! Encarei-a de volta, ela desviou desconcertada o olhar e voltou para atrás da porta. Já havia perdido mais de hora na caça e espera, resolvi tocá-la, mas, como era de se esperar, não deu certo. Ela dormiu atrás da sapateira, e eu, mais uma vez passei a noite aos cochilos.
Nos dias seguintes tive o cuidado de vistoriar o quarto mais cedo e fechar a porta correndo, antes que ela entrasse. Passei muio tempo nesse ritual e convivendo com a lagartixa pelo corredor, pelas paredes e janelas, quando menos esperasse ela aparecia para me fazer companhia, trocar uma ideia, ou simplesmente passar ao meu lado.
Até que um dia Sookie sumiu e minha vida voltou a ser como antes. Só que agora mais vazia.
òtimo conto, amiga.
ResponderExcluirUm aspecto do texto me parece bem importante: o que incomoda tanto a personagem não é a lagartixa, mas a solidão.
E cheio de elementos simbólicos. A cabecinha espiando por baixo da porta do banheiro quando a personagem está na cama dispensa comentários.
Parabéns,
Obrigada por ler! Adorei o comentário.
ResponderExcluirNossa, muito bonito :) é engraçado como certos animais aparecem nos momentos mais "impróprios", justamente quando queremos ficar sozinhos. Não sei se isso de fato aconteceu com você, mas comigo acontece com bastante frequência. Muito bonito o conto!! :)
ResponderExcluirObrigada Carol
ExcluirOi meu bem, Achei super fofa sua historia!
ResponderExcluiradorei !!!
a solidão é algo que me inspira a escrever também ...
enfim achei super bacana e interessante sua historia!
beijooos
Evandro Souza (Carpe Diem)
Obrigada lindinho!
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