Eu sou a árvore que anda
Nas raízes tenho asas
Tronco forte, folhas verdes
Os meus galhos miram o céu
Tempestades não me abatem
Bato as asas com o vento.
"Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria." (A. de Campos)
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terça-feira, 7 de julho de 2015
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Entre o expresso e o vinho
Para Thalita, mesmo caminho.
Ao tocar o pé direito no chão frio ela desperta para todas as sensações que irá degustar e enfrentar durante o dia. Antes de mais nada deve estar preparada para este evento, deve estar consciente, desperta, liberta. Deve ser capaz de sentir seu corpo por completo, o externo e o interno, deve ser capaz de passar pelo furacão de emoções que irá tentar levá-la sem rumo. Deve estar pronta para viver.
Ao tocar o pé direito no chão frio ela desperta para todas as sensações que irá degustar e enfrentar durante o dia. Antes de mais nada deve estar preparada para este evento, deve estar consciente, desperta, liberta. Deve ser capaz de sentir seu corpo por completo, o externo e o interno, deve ser capaz de passar pelo furacão de emoções que irá tentar levá-la sem rumo. Deve estar pronta para viver.
Ela se senta confortavelmente em seu tapete, fecha os olhos e se afunda na imensidão de seu próprio eu. O tempo ali não passa, pois ele não existe. Ao se sentir um pouco preparada para o dia, se espreguiça de forma que possa dobrar todas as curvas de seu corpo. Estes movimentos deviam ser feitos todos os dias, pelo menos pelas mulheres que gostam de si mesmas. Elas não sabem do que são capazes. Ela sabe.
Então ela está pronta. Ela liga a música, uma música para começar o dia, pode ser um jazz, pode ser um mantra, são as que ela mais gosta de ouvir pela manhã. Ela pega com carinho a velha cafeteira que seu pai lhe deu. Os presentes dados pelo pai lhe evocam pensamentos amáveis, são sempre úteis e sempre bons. Ela não entende de café, mas adora o expresso feito naquela velha cafeteira. Prepara sua mesa de café da manhã, com os sabores de gosta de começar o dia. O café que os pais enviaram para que ela pudesse preparar na cafeteira. Ela gosta forte, com pouco açúcar. A faz lembrar da dureza do mundo. Não da vida. Do mundo. A vida, você sente seu doce lá no fundo. No fundo do amargo do café, sempre há o doce. Este doce deve ser descoberto e quando você o descobre, aí tudo muda. Mas só descobrindo para saber. Ela está descobrindo. Ela sabe que é árduo este trabalho, mas a recompensa é indescritível. E na sua mesa estão todos os sabores que vão passar pelo seu dia. O azedo do queijo, o amargo do café, o doce da fruta, e um não sei o quê de canela. São as surpresas e os estranhamentos. Esse é o sabor mais gostoso, pois é o sabor do inesperado. E o inesperado não está naquilo que acontece ao nosso redor. Está naquilo que sentimos com o que acontece ao nosso redor e em como conseguimos lidar com aquilo que sentimos. É nisso que consiste a conquista de nós mesmos. Vamos ser cegados pela raiva ou pela alegria ou vamos conseguir observar essas emoções de maneira consciente? Este é o sabor da canela. Isto não sabemos. Só vivemos.
E neste evento de horas ela é abordada por todas as sensações e sentimentos pelos quais se preparou pela manhã. Ela não enfrentou dragões, não pulou de paraquedas, não se encontrou com Buda, não teve orgasmos múltiplos, não levou um tirou e não saiu de seu corpo. Ela apenas viveu uma quarta-feira de trabalho como qualquer outra quarta-feira. Ela fez suas coisinhas que sempre faz. Ela varreu a casa porque a casa varrida valia mais pela sensação de aconchego do que pela casa limpa em si. Ela pedalou sua bicicleta pela estrada de terra com o vento em seu rosto sentindo uma sensação de liberdade e prazer que só aquelas pedaladas podem fazê-la sentir. Ela sentiu medo de o pneu furar no meio da estrada e não saber o que fazer. Ela se preparou para o trabalho com a sensação de que preferia ficar em casa lendo seu livro. Ela se cansou no trabalho com o excesso de coisas a fazer e a sensação de que nunca iria terminar. Ela sentiu raiva com a falta de educação das pessoas com quem interage no trabalho. Sentiu frustração, impotência, tristeza. Mas sentiu também alegria e sensação de serviço cumprido. Ela relaxou depois do trabalho na aula de ioga. E voltou ansiosa para casa, sabendo que o Saramago a esperava. É sempre ele. E ele lhe causa emoções tão avassaladoras que não consegue conter, mas também que não consegue expressar. E ela entende que algumas coisas, ou muitas, não podem ser ditas. Apenas porque não se consegue dizê-las.
E ao final do dia, que ela começou com o forte do expresso, ela termina com a delicadeza de um Merlot. Que é o que se pede no momento. Ela liga a música mais uma vez. Pode ser um jazz, melhor se for um blues. Que é o que gosta de ouvir à noite. E ela bebe seu vinho de um vermelho escuro fantasioso e aquele sabor que não se sabe o que é. Um acre, doce, suave e marcante. E reflete em todas as emoções que sentiu durante o dia. Ela conseguiu as observar e manter centro em si mesma, ou se deixou pelo redemoinho que nos faz perder de onde devíamos estar? Ela vivenciou todas as emoções que lhe apareceram de forma viva e consciente? Em suas reflexões, é isso que ela procura. Eu vivi o dia de hoje? Com a resposta, ela deita em sua cama e sente todo o seu corpo, externo e interno, uma coisa só, uma só energia, ela e a vida, ela e o mundo, ela, a vida e o mundo. Uma coisa só.
Adormece.
sábado, 17 de maio de 2014
CORAÇÃO
A dor no coração é uma dor diferente. É uma dor tão intensa
que parece que você não vai aguentar ... vai derreter, escoar e sumir nos
bueiros do mundo. É uma dor sacana, que não vem sozinha, vem acompanhada por um
pelotão de várias outras dorzinhas, como se ela por si só não fosse suficiente.
Ela vem acompanhada da dor da tristeza, da dor da frustração, da dor da
saudade... da dor da saudade...
É uma dor insistente, que fica, se aloja, perdura e não vai
embora, mesmo se você sorrir, mesmo se você cantar, mesmo se você quiser, mesmo
se você rezar...
É uma dor silenciosa, que só você sente, que só você sabe
que sente. Ela não pede para ser falada,
para se contada, para ser notada. Ela é anônima.
É anônima e violenta. Ela marreta o coração, e o farelo que
sobra de seu trabalho te sufoca. E quando você não aguenta mais o sufoco, ele
escoa de você pelos olhos.
A dor no coração engana. Ela dorme por um tempo e quando
você menos espera ela acorda tão forte quanto era quando foi dormir. Ela acorda
e continua o trabalho.
...........
Vou colocar meu coração na geladeira, para que me reste pelo
menos um pedacinho.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
O Armário
Sinto esse cheiro em mim.
Um cheiro ruim não sei de quê.
Talvez de velho, de guardado.
Ou de parado, de mofado.
De coisa que não serve mais.
...
Vou me jogar fora.
Um cheiro ruim não sei de quê.
Talvez de velho, de guardado.
Ou de parado, de mofado.
De coisa que não serve mais.
...
Vou me jogar fora.
domingo, 13 de abril de 2014
quarta-feira, 9 de abril de 2014
ESTÔMAGO
Meu coração escorregou
Sinto náuseas de esperneio
Quem me dera um pouquinho
Ter borboletas no estômago.
Sinto náuseas de esperneio
Quem me dera um pouquinho
Ter borboletas no estômago.
terça-feira, 8 de abril de 2014
O Sofá
Eu queria ter um sofá
Daqueles grandes bem macios
Pra eu poder me afundar
Mas como não tenho um sofá
Me afundo em mim mesma.
Daqueles grandes bem macios
Pra eu poder me afundar
Mas como não tenho um sofá
Me afundo em mim mesma.
segunda-feira, 7 de abril de 2014
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Paxiúba
Eu sou a árvore que anda.
Mas hoje me sinto um cedro
Com raízes tão profundas.
Impossível dar um passo.
Mas hoje me sinto um cedro
Com raízes tão profundas.
Impossível dar um passo.
quarta-feira, 2 de abril de 2014
O abismo
Caindo... Caindo... Caindo... Caindo...
O ar me falta.
O coração me para.
O chão não existe.
O ar me falta.
O coração me para.
O chão não existe.
segunda-feira, 31 de março de 2014
Eu, o grilo e uma xícara de chá
Tarde da noite me sento à mesa com uma xícara de chá de camomila à minha frente e alguns biscoitinhos de água e sal. O chá sem açúcar. Sem adoçante também. Sem qualquer tipo de doce. Tarde da noite não é hora de doces, é hora de esperar por Hipnos, e por Morpheus. Deste talvez, não nos lembremos pela manhã. Mas dizem que ele sempre vem. Os biscoitos também sem doce nenhum. A hora é seca, escura, vazia. Não é hora para doces. Os biscoitos, se fossem de polvilho, lembrariam a minha infância na casa da avó. E o chá, se fosse de hortelã, lembraria mais ainda. Beiraria a nostalgia. Mas essa hora não é hora para nostalgias. É hora para silêncio. Entretanto o silêncio nunca é pleno. O silêncio é rompido pelo barulho da mastigação, da boca sorvendo o chá, de cães latindo ao longe e de fantasmas no telhado. Mas esses sons pouco se percebe perto da canção de um grilo, não se sabe se próximo ou se distante, com grande capacidade sonora para penetrar nos ouvidos dos insones.
Sozinha na hora da noite, é só isso que se percebe. A xícara de chá e o grilo cantante.
Essa hora da noite é a hora de dormir o sono dos justos. E como não o estou dormindo, conclui-se que de sono pouco sabemos. Não é o sono dos justos que dormimos. Dormimos outros sonos, que não esse. O do justos, deve ser o mais dífícil de se alcançar. Nunca somos plenamente justos. Se o somos com os outros, não o somos com nós mesmos. Se o somos com nós mesmos, não o somos com o mundo. Se o somos com o mundo, não o somos com os outros. Sono de justo é para espírito evoluído, iluminado. Eu só almejo um sono tranquilo, que me faça esquecer das pendências do trabalho, do medo do futuro e das dores do coração. Um sono contínuo que não se interrompa na madrugada. Esse é o pior horário para se ter pensamentos irritantes. Sempre que desperto sem motivo claro no meio da noite, acordo com alguma música insuportável na cabeça, ou com o texto de uma propaganda de seguros. Às vezes me lembro de filmes de terror e fico com medo. Às vezes me lembro de coisas tristes e choro. E se acordamos no meio da noite, na manhã seguinte levantamos cansados, como se um trator tivesse passado sobre nós. E quando não é o despertar fora de hora, são os pesadelos. Pesadelos parecem durar mais que sonhos bons. Ter pesadelo cansa.
Penso que as pessoas são infelizes porque sempre almejam coisas grandiosas. Muito dinheiro, viagens infinitas, amores perfeitos, corpos impossíveis. Acho que quando fizermos os nossos desejos no fim do ano, ou no nó da fitinha da santa, ou ao ver uma estrela cadente, seria melhor desejar pequenas coisas necessárias à felicidade e fáceis de conquistar.
Tarde da noite, com a xícara vazia e o grilo rouco, abro a janela e olho para o céu. Quem sabe não vejo uma estrelinha que realize o meu desejo. O meu desejo é do meu tamanho. O meu desejo é pequenininho. Desejo que, ao deitar em minha cama, possa eu ter um sono tranquilo e constante.
Amém.
segunda-feira, 27 de maio de 2013
UMA NOVA PAIXÃO
| RUÍNAS DE RAQCHI |
| BARCO DE TOTORA - LAGO TITICACA |
| SENHOR E SUA ESPOSA - ILHA TAQUILE |
| CAFÉ EM AREQUIPA |
| DESERTO DE HUACACHINA - ICA |
| MÚMIA NO CEMITÉRIO DE CHAUCHILLA - NAZCA |
| CANDELABRO - PARACAS |
| MACHU PICCHU |
| LHAMAS EM MACHU PICCHU |
| CASA DO ASTRÔNOMO - PISAC |
| SENHORA DE ANDAHUAYLILLAS |
| MOÇA PERUANA |
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Faltam apenas 5 dias para o final do ano de 2012 e alguns pouquíssimos já se passaram desde a chegada do verão. Confesso que a vinda do calor me deixa em um estado de espírito radiante. Da mesma forma que o sol emana seus raios de luz, assim também meus olhos emanam raios. Esses raios já não sei do que se constituem, mas digo que o são.
Porém, há que sempre haver um porém nesses emaranhados de viver, porém, juntos com os raios de sol vêm as gotas de chuva que muitas vezes não se tratam apenas de delicadas e reluzentes gotículas refrescantes, mas de rajadas nervosas que não encontram espaço nos subterrâneos e acabam por fazer cortejos e passeatas pelas ruas da cidade, muitas vezes até invadindo casas e lojas, não se sabe se em caráter de protesto ou por puro vandalismo.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Eu não achava que coração partido existisse de verdade.
Agora eu sei.
Meu coração se partiu em mil pedacinhos. E logo quando eu já havia juntado todos os cacos e colado de volta, ele caiu e se partiu de novo.
Coração partido existe. É triste. Muito triste. Tira a alegria de viver. Deixa-nos caídos, abatidos, derrotados. Dói.
Eu tenho medo de que meu coração se parta demais, e que eu não consiga mais juntar os cacos.
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Olha que as religiões todas não nos ensinam mais que a confeitaria
Adoro chocolates. Confortam o anseio da língua, o vazio do estômago, o nervosismo da mente, o querer do coração.
A melhor maneira de suprir essas humanidades seria a meditação. A meditação nos afasta do império dos sentidos e nos põe no caminho de Deus. Na verdade ela é o caminho. Mas é um caminho longo, tortuoso, difícil, demorado. Mas é de Deus. Chocolate é coisa do homem, não tem caminho, nem é caminho, já é a chegada. Ele já derrete logo, sacia, engana.
Eu adoro chocolates. Não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Mas eu lá não queria saber de metafísica. Eu queria era saber de meta-espírito. Queria estar no caminho, mas ao contrário, eu como chocolates.
Sou tão humana.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
O ralo de Lourenço
Tá sentindo esse cheiro? É do ralo...
Venho me sentindo como uma personagem de Lourenço Mutarelli. Pelo menos um pouco, já que não tenho o olho do meu pai. Mas tenho um olho, um outro olho, aquele que tudo vê. Ainda bem que é o olho que tudo vê, e não o nariz que tudo sente. Caso o fosse, estaria ferrada.
sexta-feira, 20 de abril de 2012
19 de abril
Penso que há dois tipos de ignorância: Aquele em que se ignora algum conhecimento por não ter tido a oportunidade de saber, de conhecer; desse tipo, sofremos todos. E aquele do preconceito, de ser ignorante por ter pré-conceitos formados ou estabelecidos e não se interessar em conhecer, ou formar seu próprio pós- conceito. Do segundo, sofre o Brasil. É... muita saúva e pouca saúde os males do Brasil são.
Eu só não quis deixar passar em branco o dia do índio e contar um comentário que ouvi outro dia. Estava fazendo um curso, e em determinado momento estava sendo falado sobre a capacidade civil do indígena. O instrutor havia deixado absolutamente claro que se o indivíduo indígena tiver documento e CPF ele seria considerado capaz de exercer seus direitos civis como qualquer cidadão. Nada mais simples. Foi então que uma pessoa, para minha grande infelicidade perguntou: "Mas como eu vou saber se a pessoa é índio?" Para piorar, o outro respondeu: " Se entrar alguém pelado com um arco e flecha você vai saber!" E para completar a grande desgraça de pouca saúde do Brasil, a sala inteira gargalhou. São nesses momentos que gostaria de ser como a Rebordosa e afogar minha consciência numa banheira.... O pior é que não tenho banheira.
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